(Após ler Bauman)
Tudo flui —
contactos em dispositivos,
dedos deslizando por perfis
como se fossem catálogos de carne e desejo.
Amor? Uma aplicação com opção de apagar,
código da solidão
sob o brilho fulgurante das estrelas artificiais.
O nosso abraço
carrega a sombra da separação,
o pacto invisível:
“Posso possuir-te sem te reter?”
Enquanto o mercado murmura:
“Troque, consuma, jogue fora —
o próximo corpo está em promoção...”
E o estrangeiro à porta?
Mais um resíduo da globalização,
um espelho quebrado
onde fugimos do nosso próprio vácuo.
Amar o próximo?
Mas quem indica como navegar
neste mar de selfies
onde se perdem os rostos autênticos?
Proposta para Solidez:
Que nossas ligações sejam pontes, não ondas —
firmadas na rocha áspera
do tempo vivido.
Criar raízes:
escutar o silêncio do outro,
nutrir a paciência como um jardim selvagem,
levantar lares na palavra “permanecer”.
Amar não como posse,
mas como um artesão que lixa
a aspereza do próximo
até fazer surgir luz
da própria diversidade.
Consolidar é optar:
reparar em vez de trocar,
afundar profundamente
neste rio que somos —
e nele, construir margens.
“Apenas o encontro que resiste à ferrugem e ao musgo
transforma o líquido em rio —
e o rio, em ponte de vastos espaços.”
Miranda

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