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sexta-feira, 15 de agosto de 2025

Relacionamentos fluidos

 Cartografia do Efêmero

(Após ler Bauman)

 

Tudo flui —

contactos em dispositivos,

dedos deslizando por perfis

como se fossem catálogos de carne e desejo.

Amor? Uma aplicação com opção de apagar,

código da solidão

sob o brilho fulgurante das estrelas artificiais.

 

O nosso abraço

carrega a sombra da separação,

o pacto invisível:

“Posso possuir-te sem te reter?”

Enquanto o mercado murmura:

“Troque, consuma, jogue fora —

o próximo corpo está em promoção...”

 

E o estrangeiro à porta?

Mais um resíduo da globalização,

um espelho quebrado

onde fugimos do nosso próprio vácuo.

Amar o próximo?

Mas quem indica como navegar

neste mar de selfies

onde se perdem os rostos autênticos?

 

Proposta para Solidez:

 

Que nossas ligações sejam pontes, não ondas —

firmadas na rocha áspera

do tempo vivido.

 

Criar raízes:

escutar o silêncio do outro,

nutrir a paciência como um jardim selvagem,

levantar lares na palavra “permanecer”.

 

Amar não como posse,

mas como um artesão que lixa

a aspereza do próximo

até fazer surgir luz

da própria diversidade.

 

Consolidar é optar:

reparar em vez de trocar,

afundar profundamente

neste rio que somos —

e nele, construir margens.

 

“Apenas o encontro que resiste à ferrugem e ao musgo

transforma o líquido em rio —

e o rio, em ponte de vastos espaços.”

 

Miranda

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